Dupla jornada de trabalho da Enfermagem: para enriquecer ou garantir subsistência?

Samira Silva Santos Soares, Doutoranda em Enfermagem, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Enfermagem, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 

Norma Valéria Dantas de Oliveira Souza, Professora titular, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Enfermagem, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Márcia Tereza Luz Lisboa, Professora titular (aposentada), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Enfermagem Anna Nery, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

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Estudos com trabalhadores de enfermagem apontam que a dupla jornada de trabalho é prática comum entre esses profissionais. A pergunta é: os trabalhadores de enfermagem estão influenciados por um paradigma de prosperidade, que aposta na dupla jornada de trabalho como a possibilidade de aquisição de bens e acúmulo de riqueza, ou a remuneração da enfermagem deixou de ser suficiente? A realidade brasileira demarca que há uma forte influência do modelo neoliberal sobre o processo de trabalho da enfermagem e que, apesar do importante papel social desempenhado pelos seus trabalhadores, estes não recebem uma retribuição financeira adequada, o que os impulsiona a buscar um segundo emprego (MACHADO et al., 2016). A dupla jornada de trabalho representa, então, uma tentativa de resgatar e/ou garantir direitos sociais que deveriam ser assegurados pelo Estado, a exemplo da moradia, transporte e educação.

Por conta da inserção dos enfermeiros em um mercado de economia capitalista, que busca a maximização do lucro, a desregulamentação dos direitos sociais e trabalhistas, incentiva o trabalho precário e a ampliação do desemprego estrutural (SOUZA et al., 2017), as duplas jornadas de trabalho tão somente servem para garantir a subsistência pessoal e familiar.  Além da precarização salarial, eles sofrem com a precarização do trabalho. Esta se baseia em um processo histórico-estrutural de degradação do trabalho vivo, o qual ocorre no interior da dinâmica social, reconstituindo as condições de exploração da força de trabalho no modo de produção capitalista (ALVES, 2018).

A dupla jornada está relacionada, também, a uma questão cultural associada ao multiemprego. Assim, com a facilidade em conciliar os vínculos de trabalho e a carência de regulamentação de jornada de trabalho específica para a categoria, esta prática se perpetua. Entretanto, naturalizá-la pode mascarar um processo de banalização de sofrimento e adoecimento do trabalhador. Mesmo que ele não perceba, esta questão cultural se dispõe a atender ao capitalismo, pois, ao possibilitar o envolvimento do trabalhador com mais trabalho e em um processo de autoaceleração, faz com que haja distanciamento de uma prática emancipatória. Trata-se de armadilha psicológica, porque o sujeito confunde a demanda da organização com o próprio desejo, alienando-se (DEJOURS, 2006).

Essa discussão é apresentada em detalhes na pesquisa intitulada “Dupla jornada de trabalho na enfermagem: paradigma da prosperidade ou reflexo do modelo neoliberal?”, publicada no volume 35 da Revista Baiana de Enfermagem (SOARES et al., 2021). O estudo foi realizado em 2019, com 30 trabalhadores de enfermagem, com dupla jornada de trabalho, em instituições do setor público e/ou privado, que desempenhavam atividades assistenciais e/ou gerenciais de enfermagem, no município de Eunápolis, Bahia, Brasil.

Os participantes foram entrevistados individualmente, fora do local de trabalho. As entrevistas, com duração média de 30 a 50 minutos cada, foram gravadas e posteriormente transcritas. O material escrito foi processado com o auxílio do software Iramuteq® e submetidos à análise lexical por meio da Classificação Hierárquica Descendente. Assim, obtivemos os resultados que nos fizeram compreender os motivos que sustentam a prática da dupla jornada de trabalho na enfermagem.  A desregulamentação da jornada de trabalho é, portanto, um desafio, cabendo aos trabalhadores, aos sindicatos e às entidades de classe refletir e debater coletivamente, buscando alternativas para os problemas levantados.

Referências

ALVES, G. Precarização do trabalho e saúde do trabalhador. In: MENDES R. (org.). Dicionário de saúde e segurança do trabalhador: conceitos, definições, história, cultura. Novo Hamburgo, RS: Proteção, 2018.

DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. 7. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006.

MACHADO, M.H., et al. Mercado de trabalho da enfermagem: aspectos gerais. Enferm Foco [online]. 2016, vol. 7, no. especial, pp. 35-53. E-ISSN: 2357-707X [viewed 28 May 2021]. Available from: http://revista.cofen.gov.br/index.php/enfermagem/article/view/691/301

SOUZA, N.V.D. de O., et al. Neoliberalist influences on nursing hospital work process and organization. Revista Brasileira de Enfermagem [online]. 2017, vol. 70, no. 5, pp. 912-919. ISSN : 1984-0446 [viewed 28 May 2021]. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0092. Available from: https://www.scielo.br/j/reben/a/FrjNK4sQtBQdGdgLPGgDs6d/?lang=en#

Para ler o artigo, acesse

SOARES, S.S.S., et al. Dupla jornada de trabalho na enfermagem: paradigma da prosperidade ou reflexo do modelo neoliberal?. Rev. baiana enferm. [online]. 2021, vol.35, e38745. ISSN: 2178-8650 [viewed 21 May 2021].  https://doi.org/10.18471/rbe.v35.38745. Available from: http://www.revenf.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2178-86502021000100308&lng=pt&nrm=iso

Links externos:

Revista Baiana de Enfermagem: https://portalseer.ufba.br/index.php/enfermagem

http://www.revenf.bvs.br/scielo.php?script=sci_serial&pid=2178-8650&lng=pt&nrm=iso

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

SOARES, S. S. S., SOUZA, N. V. D. O. and LISBOA, M. T. L. Dupla jornada de trabalho da Enfermagem: para enriquecer ou garantir subsistência? [online]. BlogRev@Enf, 2021 [viewed ]. Available from: https://blog.revenf.org/2021/06/04/dupla-jornada-de-trabalho-da-enfermagem-para-enriquecer-ou-garantir-subsistencia/

 

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