Preprints na ciência brasileira: considerações sob a ótica da Enfermagem

Jonathan Renan da Silva Souza, Editor assistente, Equipe técnica da Revista da Escola de Enfermagem da USP, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: jonathan.renan.souza@usp.br

Dentre os esforços para a implementação dos preprints no Brasil e perante a recente situação de pandemia global, a SciELO coloca em pleno funcionamento seu repositório de preprints, seguido do surgimento de um repositório lançado pela Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC), em parceria com o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict). Diante desse cenário, faz-se necessária a problematização sobre os benefícios e potenciais desafios deste modo de publicação, sobretudo para a área de Enfermagem, cuja preocupação incide principalmente sobre a qualidade das publicações e seus desdobramentos no ensino e na prática dos enfermeiros e na saúde dos pacientes.

Em face da escassa literatura sobre o tema pela ótica desta área, o estudo teórico “A emergência dos preprints para a ciência brasileira:

considerações sob a ótica da Enfermagem”, publicado pela Revista da Escola de Enfermagem da USP (vol. 53), considera as particularidades da ciência brasileira no problemático cenário atual. Este visa a ressaltar a importância da discussão sobre os preprints em cada campo do conhecimento antes de sua adoção irrestrita como modo de publicação paralelo à revisão por pares duplo-cega, tradicionalmente praticada pelos periódicos brasileiros.

Dentre os benefícios dos preprints divulgados recorrentemente pelo Blog SciELO em Perspectiva e retomados de maneira crítica por Barbosa e Padilha (2018) no âmbito da Enfermagem, ressalta-se a agilidade na disponibilização on-line, gratuita e em acesso aberto do documento, a qual asseguraria ao autor a garantia da originalidade e prioridade de descoberta. A depender da possibilidade de receber comentários, o preprint poderia ser aprimorado, além de submetido simultaneamente a um periódico de revisão por pares. Apontam-se, ainda, a publicação de resultados negativos e a garantia de que o estudo seria publicado, a despeito da demora da revisão dos periódicos, evitando inclusive a duplicação de pesquisas. Por fim, a correção rápida de erros e uma maior janela de citação para os documentos são vantagens potenciais da adoção deste modelo de publicação.

Com a intenção de promover a discussão, o estudo teórico delimita também algumas preocupações, por vezes negligenciadas nas discussões sobre este tema polêmico. Algumas delas se referem à qualidade dos documentos submetidos aos repositórios; a existência de uma avaliação prévia; a total responsabilidade do autor sobre o que é publicado; a publicação de erros metodológicos e estatísticos; a pouca interatividade nos repositórios que possibilitam comentários; a legitimidade dos documentos para recuperação em revisões e estudos documentais/bibliométricos; a competitividade que poderia ser fomentada; o novo papel para os periódicos diante da mudança do sistema duplo-cego e o risco de roubo de ideias.

Por um lado, os preprints significarão um grande passo em direção à ciência aberta e ao acesso universal à produção científica, especialmente aquela veiculada em periódicos que cobram pelo acesso. Por outro lado, questionam-se sobretudo a qualidade das publicações depositadas nos servidores e o papel a ser cumprido pelas agências de fomento em sua legitimação. Em tempos de pandemia global, a justificada necessidade da veiculação rápida de resultados científicos confronta-se com a importância da cautela em relação à interpretação desses resultados por leigos, salientando o valor da divulgação responsável de estudos inéditos, sobretudo na área da Saúde.

Partindo de um marco teórico crítico, as contradições desse novo modelo para áreas como a Enfermagem tomam a frente na perspectiva deste estudo, por evidenciarem as dificuldades estruturais da ciência brasileira num contexto economicamente periférico e dependente. A preocupação com a dimensão ética e a necessidade de um debate mais amplo e em maior profundidade sobre o tema dentro da comunidade científica são alguns dos aspectos sublinhados.

Os novos rumos da publicação da ciência brasileira são, portanto, chamariz para se pensar os desafios coletivos que especialmente autores e periódicos, em suma, a produção científica nacional enfrenta atualmente e que se evidenciam nas contradições desveladas no debate em torno da adoção dos preprints.

Referências

BARBOSA, D.A. and PADILHA, M.I. Ethical dilemmas for the areas of nursing and health in relation to preprints. Rev Bras Enferm [online]. 2018, vol. 71, suppl 6, pp. 2602-2603. ISSN 0034-7167 [viewed 23 April 2020]. DOI: 10.1590/0034-7167.201871supl601. Avaliable from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672018001202602&lng=en&nrm=iso

Para ler o artigo, acesse

SOUZA, J.R.S. A emergência dos preprints para a ciência brasileira: considerações sob a ótica da Enfermagem. Rev. esc. enferm. USP [online]. 2019, vol. 53, e03534, ISSN: 0080-6234 [viewed 31 March 2020]. DOI: 10.1590/s1980-220×2019020803534. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080-62342019000100604&lng=pt&nrm=iso

Link externo

Revista da Escola de Enfermagem da USP – REEUSP: www.scielo.br/reeusp

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SOUZA, J. R. da S. Preprints na ciência brasileira: considerações sob a ótica da Enfermagem [online]. BlogRev@Enf, 2020 [viewed ]. Available from: https://blog.revenf.org/2020/05/15/preprints-na-ciencia-brasileira-consideracoes-sob-a-otica-da-enfermagem/

 

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