O cotidiano da equipe de enfermagem no sistema prisional brasileiro

Lilian Machado Torres, Professora na Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Estudantes do último semestre de enfermagem, preocupados com as condições de trabalho e experiências vividas pelos profissionais no atendimento aos presidiários, objetivaram compreender o cotidiano da equipe de enfermagem no sistema penal. O estudo mostrou que os profissionais atuam de maneira humanizada e identificam as necessidades dos presos, apesar de se sentirem impotentes por não terem protocolos que direcionem os cuidados. O trabalho, no entanto, sofre com a estrutura física inadequada, interferência dos guardas no atendimento, e falta de profissionais e de treinamento para realização do trabalho. Os profissionais referiram que necessitam de maiores qualificações para atender os presos, pois sem essa formação, o cuidado não ocorre de maneira efetiva. Revela também que existe rapidez para marcação de consultas em serviços externos ao presídio e a realização de testes rápidos. Contudo, nesse mesmo cenário, percebe-se a dificuldade para deslocar o preso, intra e extra muros do presídio. Esse cenário impacta não apenas nos presos, mas também na vida da equipe de enfermagem, a qual revela sentir medo e ser constantemente observada e questionada quanto à realização do seu trabalho.

A pesquisa, intitulada “Vivências da equipe de enfermagem no cotidiano do sistema penal” (SOARES et al., 2020), está publicada na Revista Baiana de Enfermagem (vol. 34). Foi realizada em 2018, com enfermeiros e técnicos de enfermagem em um Centro de Remanejamento Prisional, em um município da região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais, que se encontrava em superlotação. Os participantes foram entrevistados individualmente no próprio local de trabalho, e as entrevistas foram gravadas, com duração média de 30 minutos cada. Esse momento foi norteado por um roteiro que tinha questões acerca da realidade vivida e sobre como os profissionais percebiam o cuidado ofertado por eles aos presos. Os dados foram analisados segundo o referencial de Minayo (2012).

Numa perspectiva global, estima-se que a população mundial de presos já tenha atingido 11 milhões de pessoas e que, em 15 anos, tenha um aumento de 25 a 30% desse total (MACDONALD, 2018; WALMALEY, 2016). Esse incremento certamente resultará na identificação de mais pessoas com necessidades de cuidado à saúde, sendo este um desafio apontado em diversos países (MINAYO; GUALHANO, 2016). Dessa forma, dada a importância do trabalho da equipe de enfermagem no contexto prisional, conhecer as condições de trabalho desses profissionais torna-se imprescindível. Os resultados deste estudo são inovadores ao apontar que, mesmo com número reduzido de profissionais e frente às diversas limitações e cenário hostil, o cuidado com o outro pode ser humanizado. Nesse sentido, é possível apreender a relevância do cuidado de enfermagem no ambiente prisional, onde a atuação precoce diante dos agravos decorrentes do encarceramento, se existisse, reduziria custos e otimizaria o cuidado.

Referências

MACDONALD, M. Overcrowding and its impact on prison conditions and health. Int J Prison Health [online]. 2018, vol. 14, no. 2, pp. 65-68, 2018. ISSN: 1744-9200 [viewed 17 December 2020]. https://doi.org/10.1108/IJPH-04-2018-0014. Available from: https://www.emerald.com/insight/content/doi/10.1108/IJPH-04-2018-0014/full/html

MINAYO, M.C.S. and GUALHANO, L. Saúde nas prisões: avaliações, políticas e práticas. Ciênc saúde coletiva, [press release]. 2016, vol. 21, no. 7. Available from: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext_pr&pid=S1413-81232016010800001&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

MINAYO, M.C. de S. Análise qualitativa: teoria, passos e fidedignidade. Ciênc. Saúde coletiva [online]. 2012, vol. 17, no. 3, pp. 621-626. ISSN: 1413-8123 [viewed 17 December 2020]. DOI: 10.1590/S1413-81232012000300007. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232012000300007&lng=en&nrm=iso

WALMSLEY, R. World prison population list. 11. Ed. Institute for Criminal Policy Research: London, 2016. Available from: http://www.prisonstudies.org/sites/default/files/resources/downloads/world_prison_population_list_11th_edition_0.pdf

Para ler o artigo, acesse

SOARES, A.A.M., et al. Vivências da equipe de enfermagem no cotidiano do sistema penal. Rev baiana enferm [online]. 2020, vol. 34, e34815. E-ISSN 2178-8650 [viewed 17 December 2020]. http://dx.doi.org/10.18471/rbe.v34.34815. Available from: https://periodicos.ufba.br/index.php/enfermagem/article/view/34815

Link externo:

Revista Baiana de Enfermagem: https://portalseer.ufba.br/index.php/enfermagem

http://www.revenf.bvs.br/scielo.php?script=sci_serial&pid=2178-8650&lng=pt&nrm=iso

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

TORRES, L. M. O cotidiano da equipe de enfermagem no sistema prisional brasileiro [online]. BlogRev@Enf, 2021 [viewed ]. Available from: https://blog.revenf.org/2021/03/12/o-cotidiano-da-equipe-de-enfermagem-no-sistema-prisional-brasileiro/

 

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